Publicado por: cnosantiagomaior | Dezembro 14, 2008

Uma história de luta

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Esta história não começa como quase todas as outras. Aqui, o “era uma vez”, “há muito, muito tempo” ou até “Num país muito longínquo” não têm lugar, uma vez que falamos de uma história bem real.

Aos treze anos, este menino de olhar meigo, doce e com uma enorme curiosidade de conhecer a Europa e, mais importante que isso, um desejo enorme de ajudar a sua vasta família, menino de idade, mas homem de pensamento, desde cedo começou a dar os primeiros passos para encontrar uma vida melhor. E, ao contrário da maior parte das crianças, brincar não estava nos seus planos nem tão pouco nos seus objectivos de vida.

Na Guiné-Bissau, andou na escola até à 3ª classe onde aprendeu alcorão.

Através de uma pessoa que se fez passar por alguém que o queria ajudar, é levado para o Senegal, onde supostamente iria aprender árabe. No entanto, essa aprendizagem consistia apenas na realização de trabalho árduo e de peditórios na rua. Passados sete meses e, com a ajuda de uma senhora (que, diariamente, dava-lhe de comer), conseguiu fugir de lá e ir ter com a sua mãe.

Na sua terra, trabalhava de manhã (das 7 às 13 horas). Depois do almoço em família, ia para o mato com sua mãe (de quem tem muitas saudades) apanhar fruta e levar os animais (vacas) a pastar.

Morava perto de uma horta e, por isso, tinha a possibilidade de comer muita manga, laranja e alguma banana. Por vezes bebia leite fresco, quando havia possibilidades para tal. A carne e o peixe, quando ingeridos, eram sempre apanhados no próprio dia. O arroz e a batata-doce não faltavam na sua alimentação.

O tempo passava, mas o desejo de ter uma vida nova não tinha sido esquecido. Então, com um visto para Paris, sai do Senagal, na companhia de um familiar, rumo a esse país. Nessa viagem fez escala em Portugal – Lisboa e seguiu viagem. Chegado a Paris, nesse mesmo dia resolveu regressar a Lisboa, tendo vindo até Madrid e, posteriormente, até à capital Portuguesa. Aqui chegado, instalou-se durante alguns dias na Damaia (de Cima) onde tinha pessoas conhecidas da sua terra de origem.

Na Damaia permaneceu cerca de uma semana, saindo apenas de casa para tentar formalizar a sua situação.

A situação não lhe pareceu ser a mais adequada e resolve ir até Portimão, com um dos seus irmãos. Passados dias de lá estar começa a trabalhar. Como imigrante, não nos parece difícil perceber para onde foi trabalhar. É certo que não iria ter um trabalho fácil e, das 8 às 20 horas, com apenas uma hora de almoço, este jovem começa a laborar nas obras, como servente de pedreiro.

Nas primeiras duas semanas de trabalho, a adaptação foi difícil. À hora de almoço, acabava sempre por vomitar, pois por um lado não tinha afinidade com os hábitos alimentares do nosso povo e, por outro, a comida era feita à base de muita gordura, muitos óleos e, como o nosso jovem refere “comida feita por homens!”.

No final de um dia de trabalho, este jovem, chegava a casa e depois de um duche refrescante dormia, até por volta das 22 horas, para depois jantar e voltar de novo para a cama.

Passadas duas semanas desta nova vida, acabou por se acostumar. É então que decide dar rumo a mais um dos seus sonhos de menino: ser futebolista. Tentou treinar no Portimonense, como lateral direito. No entanto, sem documentos, vê-se obrigado a abandonar esse sonho.

Durante um mês viveu no mesmo contentor com seu irmão e outros colegas de trabalho. Mas a falta de condições, de privacidade e o barulho característico destes contentores (de obras), levou-o a alugar um quarto para si.

Sem documentos, era obrigado a mudar constantemente de trabalho.

Passado mais ou menos um ano e, como tinha visto para a Suíça, decide ir para lá. Pagando cerca de trezentos euros, consegue que alguém o transporte até Genebra, juntamente com mais três colegas. Chegados a Genebra, por volta da uma hora da madrugada, chamam um táxi e decidem entregar-se na esquadra de polícia mais próxima. Por isso, ficaram entregues à polícia durante quinze dias, tendo pedido asilo político. Ficaram alojados num local próprio para pessoas que, tal com ele, tinham pedido asilo político. Nesse local, ladeado por um grande muro e vigiado por vários polícias, davam-lhe alojamento e alimentação.

Nesses quinze dias, este jovem, aguardava ser entrevistado na língua que havia escolhido (português) para poder explicar o seu percurso, porque tinha saído do seu País (não será necessário, suponho, relembrar a existência de guerra na Guiné- Bissau).

Realizada a tal entrevista, foi-lhe emitido o visto para um ano de permanência na Suiça e informado de que, findo esse tempo, sem ter problemas com a justiça, o mesmo seria renovado por mais um ano.

Felizmente, pelo Mundo fora, há bem feitores! E, numa outra cidade Suiça, existia uma bem feitora, de seu nome Florina. Esta senhora, com cerca de quarenta e sete anos, com algum dinheiro e ainda com mais vontade de ajudar os outros, acolhia em sua casa alguns asilados. E, foi para a casa dela que a personagem principal desta nossa “estória”, vai viver, juntamente com mais dois outros rapazes asilados e a filha de Floriana.

Floriana gostava dele e colocou-o na escola para aprender alemão, mas, o desconhecimento da língua e a falta de destreza em andar de transportes públicos (troca de comboio, eléctrico, …), fez com que ele faltasse muito à escola. Com pena, não conseguiu adquirir novos conhecimentos, nem tão pouco usufruir da oportunidade que lhe haviam facultado. Mas, “o não conhecer e saber uma língua prejudica a vida de uma pessoa!”.

Através de conversas com amigos em Portugal, sabe que este país vai iniciar a legalização de imigrantes, levando-o a crer que, se viesse para cá, conseguiria resolver a sua situação, mais rapidamente que na Suíça (onde tinha de permanecer durante cinco anos), para obter o título de residência.

Então, decide vir para Portugal com a ilusão de que neste país a legalização era mais fácil e mais rápida, mas enganou-se “e muito! Passados estes anos todos ainda não tenho tudo resolvido e, se tivesse ficado na Suíça, neste momento já estava legalizado!”.

Chegado a Portugal, fica em Linda-a-Velha, em casa de um primo. Passado pouco tempo e, mais uma vez, tenta jogar futebol, desta vez no Vitória de Setúbal. Ainda manteve contactos um senhor (do Benfica) mas, a falta de documentos impediram, novamente, desenvolver o seu sonho.

A sua sorte “sempre muito pequena”, a necessidade de encontrar condições bem melhor, levam-no a viajar até Alemanha, onde as coisas não correram bem. Felizmente, nem tudo lhe coreu mal e, com alguns conhecimentos e contactos que teve, conseguiu regressar a Portugal e fixar-se durante algum tempo em Queluz Massamá. Na sua intensa vontade de resolver a sua situação no continente e, sem resultados, decide ir até aos Açores (Horta). Nesta ilha trabalhou ainda durante algum tempo mas apercebe-se que a legalização ainda é mais difícil e regressa ao continente.

Passado algum tempo recebe por parte do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) uma notificação em como o seu processo de pedido de legalização tinha sido arquivado e que tinha vinte dias para sair de Portugal. Contrata um advogado para saber o porquê do arquivamento do seu processo. Mas, pouco ou nada ficou a saber.

É então que decide ir à televisão – TVI expor a sua situação, pedindo que fosse deportado, em vez de estar a receber o subsídio de desemprego (algo que lhe causou estranheza, pois não sabia como o seu processo tinha sido arquivado e estava a receber o tal subsídio, durante um ano).

Felizmente, uma outra amiga, decide falar com ele no sentido de o aconselhar a tentar resolver a sua situação em Portugal. É então que decide viajar para a cidade que o acolhe desde há três anos – Beja. Pede então a transferência do seu processo para a delegação do SEF de Beja, onde aguarda uma resposta para saber se tem ou não direito à nacionalidade portuguesa.

Por Beja, tem trabalhado nas obras, como electricista. Em termos profissionais ser electricista é a concretização de um dos sonhos que tinha.

No entanto, refere que apesar do que já tem passado ainda não conseguiu “o que mais desejava: conseguir dinheiro para ajudar a sua família a construir uma nova casa!”. Pois sabe que, enquanto imigrante ilegal não poderá ajudar a família, com onze irmãos e a sua mãe. Como o seu pai faleceu com uma doença, ainda novo, não chegou a conhecê-lo e, talvez por isso, sinta necessidade de ajudar a sua família.

Para além do facto de seu pai ter falecido quando ele era muito pequeno, tem ainda outra mágoa dentro e si: não ter tido a oportunidade de aprender árabe com seu progenitor.

O pai deste nosso jovem era professor de árabe e mantinha uma relação de proximidade com membros do governo guineense.

Por ironia do destino, seu pai ensinou muitos meninos mas, nunca chegou a transmitir seus saberes nem a ele, nem a um outro seu irmão.

Quem sabe se não é a mágoa de não ter tido a oportunidade de aprender com o seu pai que o leva a esta procura constante e insistente de aprender sempre mais e mais.

Mensalmente, do seu ordenado, consegue juntar uma pequena quantia (que em Portugal não dá para quase nada) e enviar para o sustento de família e a educação de seu irmão mais novo.

Depois de um dia intenso de trabalho, este jovem, resolve vir insistentemente à Escola. A pé, percorre a cidade de Beja de uma ponta à outra, para aprender a ler e escrever português. Organizado e empenhado, dia após dia, vem até ao Agrupamento n.º 3 de Beja – Santiago Maior, onde durante cerca de duas horas trabalha e demonstra um interesse extremo que, enquanto professora, permitam-me dizer, jamais vi um aluno assim.

Aluno, adulto não importa a designação dele face à escola, mas sim, o empenho e a força de aprender e vencer na vida. Tudo isto, não para que algum dia seja rico, mas simplesmente, para dar à sua família uma vida melhor.

Lido, o seu percurso de vida, tem o significado que cada leitor lhe quiser dar. Vivido, não terá um significado qualquer, mas sim o de uma vida sofrida, sustentada pela solidão, pela ausência da família e, principalmente, pela distância física que mantém de sua mãe e que se estivesse junto dele, por certo, dar-lhe-ia bons conselhos e ajudá-lo-ia.

Dificuldades nestes últimos dez anos, foram algumas, uma vez que desvaloriza a maior parte delas. Considera que a obtenção da nacionalidade tem dificultado todo o seu percurso de vida pessoal e profissional. A adaptação e utilização da língua portuguesa tem sido outro entrave, nomeadamente, a nível da escrita, pois se “não souber ler nem escrever, é difícil encontrar trabalho, ter acesso a várias coisas”.

Das suas breves viagens por vários locais, guarda recordações das lindas paisagens dos Açores, Suíça e Alemanha.

Até agora, refere que “um dos melhores momentos, foi quando entregaram o título de residência. Nessa altura até suspirou!”.

Tem sentido alguma discriminação por ser de raça negra, mas isso é para ele, algo “a não ligar!”. Não percebe porque as pessoas são assim e, como considera que não vale a pena ligar, faz ouvidos moucos.

Aprendizagens feitas ao longo deste percurso foram muitas, porque a vida tem lhe proporcionado várias experiências boas e menos boas. Aprendeu a “lidar com todo o tipo de pessoas, a respeitar os outros e que o mundo é pequeno demais para pensar que somos superiores aos outros”. Para além disso considera eu “de nada vale a pena sermos mal-educados e fazer mal, pois trabalhar e ser decente é o melhor que podemos fazer na nossa vida”.

Este jovem, com uma vida preenchida de solidão, sofrimento e aventuras, é um excelente exemplo de coragem e força de vontade de aprender, de ir mais longe e de tirar a carta de condução. Para além de todos os contratempos que a vida lhe tem reservado, não desiste, até porque para ele “não faz mal aprender sempre mais!”.

Por vezes queixamo-nos de que somos feios, gordos, velhos, extremamente magros, que gostávamos de ter mais e mais e esquecemo-nos que ao nosso lado existem pessoas que simplesmente querem aprender, para conseguir um trabalho que lhe permita ajudar a família.

Se a maior parte de nós pensasse não só em si, mas mais nos outros, não haveria tanto egoísmo e tanto sofrimento.

Relato contado pelo adulto Rachido Baldé e redigido pela professora Paula Caracóis

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Responses

  1. Parabéns para a Professora Paula pois só alguém com muita sensibilidade consegue retratar de forma tão comovente uma história de vida como esta.
    Ao Rachido dou-lhe os parabéns pela coragem e pelo empenhamento que tem tido ao longo da sua vida…aproveite a amizade da profesora Paula, pois tem aí uma amiga para a vida.

    Um beijo para a Prof. Paula e para o Rachido…e que a partir de agora possa ser feliz de modo a compensar os maus bocados por que já passou.
    Susana Lança

  2. Um beijinho para a Dra. Paula pelo seu excelente “trabalho”, pelo seu humanismo e sensibilidade. Trata-se verdadeiramente de uma história triste, mas ao mesmo tempo interessante, pois é um exemplo claro de que não nos devemos conformar, mas sim lutar, de forma a podermos alcançar os nossos objectivos.
    Ao Sr. Rachido desejo-lhe felicidades e que continue sempre a ser um exemplo de coragem!


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