Publicado por: cnosantiagomaior | Junho 15, 2009

ANALFABETISMO

 

Fui chamado a reparar

O carro do senhor doutor.

Ele sabe tratar a gente

Mas o carro, não senhor!

 

Descobri as avarias

Que havia no seu motor.

Desmontei e reparei

O carro do Senhor Doutor!

 

P’ra pagar-me quis meu nome                            A seguir peguei no carro

Num papel para guardar.                                    E desarranjei-lhe o motor.

E chamou-me analfabeto                                    Voltei-me a ele, só lhe disse:

Por o não saber assinar.                                    – Repare-o agora o doutor!

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Analfabetismo entre nós

Estamos em 2009.

Desconheço a data em que este poema foi escrito mas, seguramente, terá mais de 10 anos. No entanto, passados estes anos, poderíamos dizer que o poema foi escrito num destes dias, pela mensagem que transmite. Ainda hoje há pessoas analfabetas! Ainda há quem pense que, se uma pessoa não sabe ler nem escrever, não sabe nada. Enganam-se os que assim pensam e, sobretudo, os que assim agem.

Apesar de vivermos numa sociedade marcada pela globalização, ainda conseguimos encontrar na localidade onde moramos, alguém a quem há muito conhecemos por “mestre” fulano ou sicrano. Não por ter tirado um mestrado em qualquer área, pois há alguns anos atrás esse grau de habilitação não estava em voga como agora, e a “4.ª classe” já era algo a que nem todos poderiam ter acesso.

Políticas educativas à parte, voltemos ao nosso “mestre”. Mestre carpinteiro, sapateiro, abegão, ferreiro enfim, tantas áreas de especialização! Especialização tirada fora da escola, embebida em saberes que a própria vida lhes foi proporcionando. Saberes que passavam de geração em geração, de mão para mão, de boca em boca, pois eram os veículos de transmissão mais comuns e acessíveis a todos. Talvez, muitos não soubessem ler nem escrever porque, os tempos eram outros e, desde cedo tiveram de aprender a ganhar a vida. Talvez por isso, não tivessem a oportunidade de aprender a ler e a escrever e, essa situação passou, tal como os seus saberes, para as gerações seguintes. Outros tornaram-se analfabetos, ou melhor, ficaram, porque a escola nunca lhes disse nada, nunca teve em conta as suas necessidades. E, por isso, simplesmente, abandonaram a escola tão cedo que, pouco ou nada trouxeram na sua bagagem. Então, o que sabem, aprenderam na e com a vida. Aprenderam a ser pais, a fazer compras, a cozinhar, a governar a casa, a fazer uma lista infindável de tarefas, sem saberem ler ou escrever. Sem conseguirem ler as cartas que lhes chegam a casa, sem saberem ler o horário de um serviço qualquer ou até, de escrever o seu próprio nome.

Existem ainda muitas pessoas assim e, agora, já não falo dos antigos mestres. Falo de pessoas novas, dos seus vinte, trinta e quarenta anos. Parece mentira, não é? Mas, infelizmente, é verdade.

O analfabetismo existe, está perto de nós e de pessoas que conhecemos. De facto, estas pessoas não sabem ler e ou escrever, mas sabem tantas outras coisas. Seria bom que, cada um de nós pensasse nisso e, em formas de combater essa situação.

Não é fácil uma pessoa assumir, perante outras, que não sabe ler nem escrever. Para além de não ser fácil, é embaraçoso, dificulta e não deixa as pessoas serem totalmente dependentes. Até porque estas pessoas têm muito de si para dar, ao contrário do que muitos pensam, não são uma tábua rasa de saberes. Sabem muitas coisas que não aparecem nos livros, que não se aprendem a fazer, a não ser, fazendo.

É importante que os ajudemos a alargar seus saberes e, a transformar aquilo que sabem, que aprenderam na vida, em saberes formais, ou seja, a terem um papel que comprove que “sabe fazer alguma coisa”, aos olhos da sociedade.

Paula Caracóis

Docente de cursos de Alfabetização


Responses

  1. Ainda nºao tinha tido a oportunidade de ler este texto mas está verdadeiro e espectacular. Quem já se esqueceu dos tempos de Salazar em que ser analfabeto é que era bom e útil para o Estado? Já mta gente se esqueceu.A cultura é uma arma poderosa e devemos continuar a lutar por ela. Parabens pela escolha do poema.


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